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Cidades
dos países latino-americanos
O aviso das “calles”
por Cristovam Buarque *
Desde
que terminaram seus regimes militares, as “calles” das grandes cidades
dos países latino-americanos têm estado cheias, com a população
mobilizada contra governos democráticos. Cada grande cidade do
continente – Lima, La Paz, Quito, Buenos Aires – se enche de gente
protestando contra presidentes eleitos democraticamente, como aconteceu
no Brasil, em 1992. As razões são claras. Os regimes militares se mantêm
graças à força das armas, os regimes civis, graças à credibilidade dos
seus presidentes.
A credibilidade dos governos democráticos está apoiada em quatro bases:
a imagem de honestidade, o cumprimento dos compromissos de campanha, a
manutenção do bom funcionamento da economia e a execução de políticas
que beneficiem o povo, mudando a trágica realidade social dos países do
nosso continente.
O presidente que passa imagem de corrupção, descumpre os compromissos de
campanha, leva o país à estagnação ou à inflação, gera automaticamente
um incentivo para que o povo, inicialmente em silêncio, dentro das
casas, depois mobilizado, nas ruas, se manifeste contra o governo. Além
disso, no caso de países como os latino-americanos, governos que não
conseguem realizar reformas que diminuam a desigualdade e assegurem
inclusão social são governos condenados a enfrentar manifestações de rua.
Tudo se resume na perda da esperança que o povo adquire por meio das
urnas.
Não é possível prever o momento nem a dimensão dessas mobilizações. Nem
mesmo se elas chegarão ao extremo das que ocorreram no Brasil, na
Argentina, no Equador, no Peru, ou se ficarão nos níveis da mais recente,
na Bolívia, onde o presidente ganhou algum tempo.
O Brasil não é diferente. Nossa democracia é mais jovem do que a de
alguns desses países. E as expectativas geradas na campanha de 2002, no
caso do Brasil, são muito maiores. Isso nos obriga a ter mais
responsabilidade e ouvidos mais abertos. Se não pudermos ouvir os gritos
que vêm das “calles” das grandes cidades latino-americanas, estaremos
condenados a repetir aqui o mesmo que esses países vêm sofrendo.
O Brasil precisa estar alerta. Não apenas o presidente e o governo, mas
toda a nossa liderança política, inclusive a oposição. Cometeremos um
crime contra a democracia e uma injustiça com o povo se não recebermos o
alerta que vem de fora. Precisamos perceber que as “calles” se
transformam em ruas. É apenas uma questão de tradução. O povo brasileiro
ainda está em silêncio dentro das casas, mas pronto para ir às ruas. Nós,
líderes políticos, estamos agindo para levar o povo às ruas. Por ações
ou omissões, estamos provocando o povo.
Quando isso acontece, os governos e seus dirigentes civis têm apenas
dois caminhos: procurar o apoio dos exércitos e abandonar a democracia,
ou pular o muro das embaixadas e partirem para o exílio. Dois destinos
trágicos, que precisamos evitar a qualquer custo. A única maneira é
cumprir os compromissos de campanha, fazer as reformas sociais, manter a
economia no rumo, e fazer o povo acreditar que seus políticos são
honestos. Tomara que o Presidente Lula e seus assessores tenham ouvidos
abertos para os gritos que vêm de fora, das “calles” das grandes cidades
latino-americanas.
*
Professor da Universidade de Brasília, Senador pelo PT / DF.
www.cristovam.com.br /
cristovam@senador.gov.br
Paginas Vinculantes:
www.uruguay.com/LaOnda/LaOnda/231/Recuadro33.htm
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