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Nós e nós
por Cristovam Buarque
Nós, brasileiros do
século XXI, herdamos uma grande quantidade de nós que amarram nossa
caminhada. Dentro de algumas décadas, quando a história destes dias for
estudada, vai parecer que o futuro do Brasil estava amarrado por apenas
dois nós: a taxa de juros elevada e a corrupção desenfreada. É como se o
nosso futuro não estivesse preso a uma longa corda de nós que impedem
que o Brasil, independente há quase duzentos anos, se transforme em
nação.
No noticiário, na ação do Congresso e nas decisões do governo, não há
referência a tantos outros nós herdados em dois séculos: concentração da
renda, analfabetismo, atraso na educação pública, desigualdade regional,
apartação social, estagnação econômica, endividamento, desemprego,
violência, deficiências no sistema de saúde, depredação ambiental,
vulnerabilidade internacional, corporativismo, enfraquecimento das
universidades, desprezo à cultura, paralisia no debate de idéias. Esses
problemas ficam esquecidos, ou relegados, porque àqueles que fazem as
notícias interessa apurar o que os atinge diretamente. O problema dos
nós está em nós: a aristocracia republicana que se nega a enxergar os
nós que amarram o Brasil, atingindo os excluídos.
É claro que é um ato de corrupção a apropriação ilegal, clandestina, de
dinheiro público por indivíduos. Mas também deveria ser vista como
corrupção a utilização de recursos públicos em benefício da parcela rica
da sociedade, em prejuízo de investimentos sociais, mesmo quando isso é
feito legalmente, por meio do orçamento aprovado pelo Congresso.
O desvio do dinheiro da construção do TRT de São Paulo para a conta de
um juiz foi um ato de corrupção. Mas em um país que tem 14 milhões de
habitantes sem acesso a água encanada, e no qual somente metade da
população tem saneamento em casa, gastar dinheiro público para construir
um prédio de luxo é uma corrupção tão grande quanto roubar esse dinheiro.
Todos se indignaram porque um juiz desviou R$ 169 milhões no decorrer
das obras. Mas ninguém protestou quando R$ 220 milhões, que poderiam ter
sido destinados à construção de casas populares e à instalação de
sistemas de água e esgoto, foram transferidos para a construção de um
edifício de luxo para o poder público. O desvio foi uma corrupção no
comportamento; a decisão foi uma corrupção nas prioridades. Para piorar,
até o dia 30 de julho deste ano, tinham sido aplicados apenas 3% dos
gastos previstos no orçamento para obras de saneamento em 2005.
Em um país com tamanha a crise fiscal e social, isso é um desvio na
ética das prioridades. Recursos são gastos em benefício da população
rica, ou simplesmente desperdiçados, sem provocar nossa indignação,
porque consideramos natural o desvio de dinheiro público para o
atendimento de interesses da aristocracia republicana que compomos, em
vez de lutarmos para que eles sejam utilizados em benefício das cama das
mais pobres.
O problema dos nós que amarram o Brasil está em nós, brasileiros. O
Brasil republicano não se completou, a sociedade se manteve dividida,
separada, com uma parcela excluída, como os escravos, e uma parcela
incluída, como a nobreza. O governo continuou como uma corte, mudou o
endereço para Brasília, alterou o modo de escolher o chefe de estado por
eleições, trocou o título de imperador pelo de presidente e o nome de
Pedro para Luiz. No mais, tudo continua igual: os nós são os mesmos,
porque nós somos os mesmos. Nós somos os nós.
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