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Surdez Moral
por Cristovam Buarque *

Graças a um projeto da Senadora Ideli Salvatti, do PT de Santa Catarina, as escolas brasileiras passarão em breve a utilizar a Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS, em seus cursos. Essa será uma revolução no direito à educação de milhares de brasileiros de todas as idades, impedidos de estudar plenamente por terem deficiências auditivas, não sendo portanto capazes de entender a linguagem oral.

Esperemos que o projeto sirva de exemplo para que o Congresso Nacional ensine a língua de sinais aos seus parlamentares. Não só para que parlamentares com deficiência auditiva possam acompanhar os trabalhos legislativos, pois é possível com a ajuda de intérpretes. Mas porque precisamos – nós, políticos brasileiros - entender a linguagem corporal dos pobres brasileiros.

Precisamos deixar de ser surdos aos gritos do povo nas esquinas ou no campo. Compreender o que dizem as crianças pedindo esmolas na esquina, driblando carros, no horário em que deveriam estar na escola. Dentro de nossos carros, passamos por essas crianças tão insensíveis quanto uma pessoa surda ao lado de alguém aos gritos. Não ouvimos e não entendemos a fome, a insegurança e o medo frente às ameaças da rua, da noite, do dia seguinte, do futuro imprevisível. Não escutamos o grito que mostra o triste futuro de uma nação impassível frente às necessidades de suas crianças.

Não tomamos conhecimento dos berros de quase dois milhões de crianças brasileiras em idade escolar que nem sequer entraram na escola; ou de milhões de outras crianças que serão matriculadas mais para fugir da fome comendo merenda do que para sair da ignorância aprendendo letras. Não percebemos que o futuro do País está gritando, nossa surdez matando o destino de todo o País.

Somos todos portadores de uma triste e profunda deficiência auditiva diante das necessidades dos pobres.

Passamos por corpos dormindo nas calçadas sem ouvir a injustiça que eles gritam. Somos incapazes de perceber a fome daqueles corpos na imobilidade das noites de frio, o desespero da falta de uma casa, a falta de perspectiva. Não vemos o desperdício de futuro por falta de investimento nas pessoas. Não reagimos ante os gritos assustadores das pessoas que chegam aos hospitais sem leitos para parentes doentes. Somos surdos para mães e pais barrados nas portas dos hospitais, com os filhos nos braços, sabendo que atrás da porta há condições de salvar-lhe a vida.

De dentro dos carros fechados, com o ar condicionado ligado, não ouvimos o que dizem os olhos e os corpos de homens e mulheres que esperam o ônibus com horário imprevisível, enquanto seus filhos esperam trancados em casa. Não ouvimos o que dizem os olhos analfabetos querendo adivinhar o trajeto do ônibus, ou o endereço dos anúncios de emprego, ou o nome do remédio que lhe prescreveram. Não ouvimos o estômago dos que não têm o que comer. Porque somos surdos para os problemas da pobreza.

Precisamos aprender a língua de sinais dos corpos, dos olhos, das mãos dos pobres. Nossa surdez se chama insensibilidade, incapacidade de sentir indignação. Somos surdos para os problemas dos que nada têm. Se isso é imperdoável para os indivíduos, é ainda mais para as pessoas que têm obrigação de governar o Brasil, do Executivo, Legislativo e Judiciário. Essas três Casas precisam imediatamente de aulas dessa outra língua brasileira de sinais.  Sem isso, e se continuarmos não ouvindo os gritos que vêm do futuro do Brasil, destruiremos uma nação inteira.

* Professor da Universidade de Brasília, Senador pelo DF/PT.
cristovam@senador.gov.br / www.cristovam.com.br

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