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Vanguarda atrasada
por Cristovam Buarque*

Em 2002, o povo brasileiro deu uma prova de clareza e ousadia, elegendo Lula presidente. Percebeu que o Brasil precisa não só administrar sua crise momentânea, mas também reorientar seu destino social, para superar a crise mais profunda de um país que ainda não encontrou seu rumo. Escolheu o que seria inimaginável há alguns anos: um presidente vindo do povo, de um partido da esquerda, com promessas revolucionárias.

Ainda é cedo para saber o que dirão os historiadores. Mas uma coisa percebe-se desde já: o governo não mostrou a inteligência nem a ousadia do povo. As elites dirigentes e a vanguarda ficaram atrasadas. Os intelectuais preferem o silêncio, os políticos preferem as CPIs. E o povo percebe que o Brasil precisa de reformas. e acredita em Lula. Mas ele, políticos e intelectuais não percebem as exigências do momento. São prisioneiros do dia-a-dia, das circunstâncias, sem imaginação nem ousadia.

Políticos e a imprensa demonstram não tolerar o pagamento de alguns milhares de reais, sob a forma de mensalões. Esta semana, porém, o governo federal enviou sua proposta de orçamento para 2006. E nem a imprensa nem os políticos dedicaram tempo para analisar os bilhões de mensalões legais embutidos ali. A vanguarda ficou para trás, defendendo seus interesses tradicionais. Não mostra o entendimento nem a ousadia das massas, que exigem mudanças profundas na estrutura social brasileira. Não cobra o uso dos recursos públicos a serviço do povo e da construção de uma sociedade unida.

Em 2002, o povo mostrou que queria reduzir o fosso que separa os 20% mais ricos dos 50% mais pobres, os doutores com 20 anos de boa educação dos que não completam quatro anos de ensino sem qualidade. E acreditou que para isso precisava de um presidente que tivesse a sua origem.

Perdemos a chance. Os intelectuais ficaram em silêncio, os políticos tropeçando. Por uma razão: nenhum deles quer perder, e a revisão do orçamento requer uma redistribuição das prioridades e dos beneficiários do dinheiro público.

A vanguarda está na retaguarda. Atrasada.
O silêncio é o túmulo do intelectual. O vazio das idéias. Mas os intelectuais brasileiros se calaram. Não conseguem explicar a crise, sugerir rumos para o País. O imediatismo é o túmulo do estadista. Mas os políticos brasileiros se consomem na rotina das CPIs e das reivindicações corporativas. Não conseguem orientar os destinos da Nação, formular, conduzir.
Em 2002, os brasileiros optaram por uma ruptura arriscada, corajosa, à altura da crise de um país estagnado economicamente, endividado interna e externamente, com cidades degradadas, renda concentrada, com metade da população na miséria e uma educação vergonhosamente atrasada e desigual. Havia que arriscar um caminho alternativo. Mas nós, dirigentes e políticos, não soubemos aproveitar a chance. Não estamos à altura da crise. E as massas que arriscaram a eleição do presidente da ruptura com o passado vêem frustradas um país patinando na crise, como um eterno ciclo de tragédias.

A geração dirigente de hoje não está à altura do desafio do momento. Não percebe o esgotamento do ciclo histórico dos tempos imperiais e escravocratas. Não vê que o desenvolvimento econômico da segunda metade do século XX custou caro, em termos de recursos financeiros e desarticulação social, e não conseguiu completar a república livre que se esperava. Nem está formulando um desenho alternativo para o futuro.

Há, no entanto, uma ânsia por alternativas, um desejo de seguir adiante. Uma imensa vontade de não deixar a esperança morrer.

* Professor da Universidade de Brasília e senador pelo PT/DF

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