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Los americanos del Sur
Identidad y perspectiva
Héctor Valle |
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Los americanos
del Sur
Identidad y perspectiva
Héctor Valle |
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O lugar do desenvolvimento sustentável na sociedade civil
organizada
Nanci Valadares
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O lugar do desenvolvimento sustentável
na sociedade civil organizada
por Nanci Valadares
(Ph.D/NYU/81)
A
evolução em direção ao Desenvolvimento Sustentável
Em todas as culturas encontra-se,
com menor ou maior elaboração, um sentido da natureza e da
integração humana nos seus domínios junto a exemplos mais ou
menos candentes da sua defesa, em razão do nosso esquecimento e
desatenção. Em 1885, o Chefe Seattle respondendo à proposta de
compra de suas terras pelo Presidente dos Estados Unidos dizia
que sem a fauna , os homens morreriam de uma grande solidão do
espírito.
Anos mais tarde quando a
jornalista Rachel Carson descreveu no Silent Spring
(1962) a morte da natureza , os países que hoje pertencem ao G-7
estavam completando a plenitude da Revolução Industrial sem
nenhuma culpa, pois não havia sequer a consciência impertinente
do Ambientalismo.
Um década depois, o debate
científico viu-se informado pelo estudo seminal do Prêmio Nobel
de Economia de 1973, Wassily Leontief, denominado
Estrutura da Economia Mundial.
O autor que delinea um modelo
de economia mundial dependente da dinâmica entre dois setores,
o mundo desenvolvido e o mundo menos desenvolvido, propõe:
i - que a escala do pensamento político e do pensamento
econômico sofreria uma guinada do estado – nação para a mega -
economia e a mega – política numa escala mundial; ii –
que os processos econômicos seriam então politizados; iii –
que o abatimento da poluição na atividade industrial criaria
valor agregado aos setores produtivos.
Seu trabalho concluiu que a
incapacidade industrial no setor menos desenvolvido do mundo de
gerar abatimento da poluição causaria um aprofundamento da
distância entre os dois mundos da economia mundial.
A partir de então oferece-se ao
pensamento e à ação, uma base pela qual a defesa da natureza
ademais de exigir a correção dos rumos da industrialização,
adiantada ou não, muda de sentido ao somar um horizonte de
melhor distribuição da riqueza mundial.
Como conseqüência , no âmbito deste trabalho, toma - se por
sustentabilidade a combinação concertada de objetivos
econômicos, políticos,
sociais e simbólicos na defesa do Planeta como abrigo de uma
população
homogênea.
Há que se reconhecer que a
sustentabilidade ainda não estabeleceu certezas conclusivas , em
parte porque os próprios especialistas não se põem de acordo
sobre a origem, o lugar e o destino desta problemática
contemporânea.
Com base na ausência de verdades
provadas, justificam-se igualmente , no início do Século XXI, a
recusa dos Estados Unidos em assinarem o Protocolo de Kyoto e a
legalização do plantio da soja transgênica no Brasil, em nome
das razões econômicas nacionais – certas ou erradas - em
detrimento das possíveis razões substantivas da economia
política mundial, analisada sob o novo critério da
sustentabilidade.
De fato, menos que aos
cientistas, a inclusão da exigência de sustentabilidade no
processo desenvolvimentista e na manutenção de padrões mínimos
de abatimento de poluição ou de políticas ambientais
compensatórias ( por parte dos países que compõe o G-7) deve-se
a uma reflexão assentada por técnicos de organismos
internacionais, intelectuais de todo o mundo, associações de
interesse (a exemplo do Clube de Roma ou de Davos), a líderes de
governo e a ativistas , mas também à opinião pública.
No Brasil o ex - Ministro Delfim
Neto, com base na sua experiência , reconhece no Projeto
Carajás, a primeira ocorrência de uma exigência de aplicação dos
critérios de sustentabilidade ao governo brasileiro, como
condição de liberação de recursos pelo Banco Mundial, isto , no
início dos anos 70.
Nesta perspectiva governamental,
a sustentabilidade implica numa revisão das práticas de
Cooperação Internacional, geralmente aparecendo no lugar de uma
figura de linguagem para salvaguarda do compromisso de
continuidade do projeto após sua implantação, bem como uma
garantia da qualidade técnica da sua execução, e finalmente, da
projeção do crescimento econômico a ser realizado.
Há que se admitir porém que muito
resta a ser discutido sobre o sentido sistêmico do
desenvolvimento sustentável, se trata - se de suplantar a fácil
sinonimia com crescimento contínuo e equilibrado ou com a
preservação pura e simples dos recursos naturais do planeta.
O desenvolvimento sustentável nas
relações internacionais
As preocupações com o meio –
ambiente e o desenvolvimento sustentável passam a fazer parte da
agenda política institucional de modo mais contundente desde o
início dos anos setenta, quando na Conferência de Estocolmo
realizada em 1972, foi apresentado o relatório Uma Só Terra.
Este relatório pode ser considerado como um marco na luta
ambientalista, posto que por meio da Resolução GA RES 2297
criava uma instância consultiva com capacidade fiscalizadora
para reportar junto a ONU, as ações internacionais e
governamentais que ameaçassem à sustentabilidade do
desenvolvimento.
Com o intuito de criar consistência para o monitoramento,
pesquisa e implementação de políticas ambientais, três grandes
grupos foram formados em relação (i) ao clima; (ii)
ao aspecto institucional e legal; (iii) aos recursos
hídricos do planeta. No grupo do clima situaram-se os aspectos
relativos à biodiversidade. No grupo da ação humana e dos
valores instituídos, definiu-se a problemática do
desenvolvimento sustentável como uma crítica a idéia do
progresso econômico. O grupo que se devotou aos recursos
hídricos apontou para os resíduos industriais, como sendo a
maior ameaça planetária.
Os resultados teóricos dessas iniciativas, demonstra que face ao
meio – ambiente, o sistema de relações internacionais
apresenta-se incongruente, pois contrasta com o regime decisório
participativo dos “ecotemas”.
A característica do
“regime ambiental e ecológico” – i. e. “princípios, normas,
regras e processos decisórios, explícitos ou implícitos, para os
quais convergem as expectativas dos atores”
-
ou mesmo, simplificando, das políticas internacionais referentes
ao meio – ambiente ou à ecologia – ultrapassa a composição de um
sistema internacional concebido com base na soberania e na
territorialidade, como fontes exclusivas do poder de decisão.
Em geral , os ecotemas são solucionados ou equacionados para
futura solução, por um conjunto de estados nacionais associados
para a solução dos problemas mais simples ou pela globalidade
dessas soberanias quando se trata do clima, da energia, da água,
dos problemas comuns enfim, que afetam toda a humanidade,
incluindo o interesse organizado de múltiplos outros atores
além do estado – nacional.
O
processo de elaboração de uma política internacional relativa ao
meio ambiente, com as implicações econômicas relativas, implica
numa longa consulta a diversos atores públicos e privados, sem
desconsiderar as diversas iniciativas locais, nacionais,
regionais e globais em pauta.
Sociedade Civil e Participação
Em decorrência da amplitude
assumida pelo conceito de desenvolvimento sustentável, a
Assembléia Geral das Nações Unidas reunida em 22 de Dezembro de
1989 fez adotar a Resolução 44/228, convocando a Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio – Ambiente e Desenvolvimento,
a ser realizada de 3- 14 de Junho de 1992 no Rio de Janeiro.
O conceito de desenvolvimento
sustentável no corpo da Rio-92 pressupunha a noção de uma maior
racionalidade no uso dos recursos naturais, tanto quanto na
descentralização das decisões.
Independentemente dos resultados
tímidos alcançados posteriormente em vista do alcance da
Declaração do Rio, da Agenda 21 e da Convenção da Biodiversidade
então formuladas, verificou-se uma forte tendência de
crescimento da força política dos partidos verdes e dos
movimentos ambientalistas – principalmente na Europa – e uma
maior sensibilidade deste tema junto à opinião pública.
Sucedendo à Cúpula da Criança em
Nova York, em 1990, a Rio-92 por primeira vez naquelas
proporções, congregava um amplo espectro de organizações não
governamentais catalisando uma cultura cívica global em formação.
Com a mesma intensidade de
participação, seguem-se a Declaração dos Direitos Humanos em
Viena, 1993, a CIPD no Cairo, que tratando de População e
Desenvolvimento, retomava a CNUMAD na crítica aos padrões de
consumo e produção adotados pelos países que se industrializaram
pioneiramente. A Conferência do Desenvolvimento Social
estabelecendo metas para erradicação da pobreza absoluta em
1995, adotando uma visão crítica aos planos de ajuste econômico
por penalizarem os mais vulneráveis, e por tornarem precárias as
condições de trabalho e a distribuição de renda. No mesmo ano em
Pequim e em Istambul em 1996 por ocasião da Habitat II,
retomaram-se os temas da igualdade dos direitos étnicos e
sociais, inclusive de moradia , dentro da concepção do
desenvolvimento sustentável do modo como indicava a Eco-92.
Do Rio a Viena, do Cairo a Pequim,
passando por Copenhague , os estados nacionais interagindo
entre si nos fóruns intergovernamentais e apoiados nos
movimentos e nas organizações de uma nova sociedade civil,
traçavam em conjunto as verdadeiras constituições de uma
geogovernabilidade em formação.
Desde a Agenda 21 se
apontava para um novo sentido da evolução dos povos, contrário à
idéia do progresso, ao compatibilizar o desenvolvimento com a
natureza, propiciando as bases de uma ética com os outros e com
o futuro.
Nos princípios 7 e 21 da
Declaração do Rio reconhece-se a sustentabilidade como
interesse comum , ainda que os estados tenham responsabilidades
diferenciadas. A cooperação devendo ser mandatória e
inspiradora do direito internacional.
No
sumário de “Caring for the Earth.
A Strategy for Sustainable Living”
(IUCN,UNEP E WWF/1991) recomenda-se uma aliança global de
modo a propiciar aos países de baixa renda , as condições de
proteção ao seu meio-ambiente.
A Agenda de Haia
para Paz e Justiça
(1999) recomenda
também que cada estado internamente deva criar condições de
acesso às decisões.
Na Declaração do Milênio
(Res. 25, 2000) resolve-se trabalhar coletivamente por processos
políticos mais inclusivos, indutores de uma genuína participação
de toda a cidadania em cada país.
Dar e receber informação
envolvendo a todos e encorajando as suas idéias, usar a mídia
amplamente, conduzir o povo aos museus, aos jardins botânicos
aos parques nacionais. Em suma, esclarecer , para que a vontade
do povo seja a base da autoridade do governo conforme proclamado
na Declaração Universal dos Direitos Humanos
(10/12/1948)
Apesar de todas estas cimeiras
com as suas mais altas resoluções declaradas legítimas pela
quase totalidade dos estados e dos povos do mundo, a
implantação de um modelo de desenvolvimento sustentável
representa uma transição muito difícil. Difícil particularmente
pelo que concerne à aplicação de medidas de limitação ao padrão
de consumo dos países ricos, às formas de produção dos países do
G-7 e à adoção de uma política internacional de desenvolvimento
socialmente crítica e ecologicamente consciente por parte dos
países em desenvolvimento.
Reconhecendo esta dificuldade e
com vistas a implantação de um modelo de desenvolvimento
sustentável ao norte e ao sul, o World Wild Fund For Nature (WWF
International) , com sede na Suiça, e uma das "três grandes"
INGOs do mundo,as outras duas sendo o Green Peace e a
International Union for Conservation of Nature and Natural
Resources (IUCN) iniciou um esforço de pressionar os governos
nacionais, para que incluíssem no cálculo do GNP, indicadores de
sustentabilidade.
Estes indicadores seguiriam as
três vertentes principais dos resultados da Rio-92 : medidas que
limitassem a poluição; que combatessem a injustiça social e a
pobreza; que favorecessem o desenvolvimento e à distribuição de
rendas.
Os indicadores propostos
correlacionam o incremento do comércio mundial com o aumento de
perdas ambientais e reforçam medidas de melhoria das condições
políticas internas aos países, incluindo o combate à inflação e
um apelo à reformas.
Observa-se também que surge uma
identificação de outro fator : a crítica à monocultura como
causa de ambos, o prejuízo ambiental e a concentração de rendas.
O
novo pacto internacional fundamentado na responsabilidade
sustentável dos primeiros, os maiores predadores dos recursos
naturais, para com os segundos, de modo que assim fossem
financeiramente capazes de desenvolverem-se contando com
tecnologia alternativa não - poluidora resultou por fim num
predicamento não realizado.
Também no interior dos países
menos desenvolvidos, as orientações universalistas continuaram
a esbarrar com índices constantes de desigualdade e injustiça
social impossibilitando a formação do capital social capaz de
propiciar mudanças.
O papel das ONGs e dos Movimentos
Sociais num cenário cooperativo e num cenário de confronto – o
caso do Brasil.
Sob a batuta da ONU , a última
década dos noventa havia representado um esforço extraordinário
de cooperação por parte dos estados nacionais para a elaboração
de um regime ambiental mundial, que incluísse a descentralização
das decisões, o incentivo à participação e um pleito pela
superação das desigualdades nos países e entre os países.
Porém, os dez anos após a
Conferência das Nações Unidas sobre Meio - Ambiente e
Desenvolvimento foram comemorados em Joanesburgo, em condições
internacionais muito distintas daquelas que presidiram o final
do Século XX.
A esperança da superação das
desigualdades mundiais por meio de ações cooperativas, cedeu
lugar `a ação direta ilegal de organizações e líderes de massas
excluídas por um lado, e por outro a ação de represália e
contenção de alguns dos Estados – Nacionais, dentre eles, a
superpotência.
Estes momentos
distintos , promovem cenários diferenciados para o papel das
ONGs e dos movimentos sociais : um
cenário cooperativo e um cenário de confronto.
Antes que cheguemos a compreender
o efeito de um tempo de conflito contrário ao signo da esperança
num mundo futuro, que marcara a ação ambiental da população
mundial, cabe uma nota teórica , sem a qual não se poderia
entender algumas das ilações posteriores.
Diferentemente dos Movimentos
Sociais , com os quais constantemente interagem, as INGOs não
podem depender do apelo mutável da opinião pública para a sua
constituição. Este tipo de associação de membros se erige sobre
uma visão de mundo compromissada com o futuro humano. Por
conseguinte o espectro temporal de sua atuação é o longo prazo,
não dependendo da fluidez e dinâmica com que os movimentos
sociais criam impacto sobre a cidadania.
Movimentos Sociais adotam
metodologia distinta das ONGs, pois enquanto estas dependem mais
da pesquisa e do constante monitoramento, aqueles garantem-se
nos procedimentos voltados à mobilização.
Os movimentos sociais têm um
caráter mais ideológico que as ONGs que esperam atender a
interesses comuns das pessoas atingidas.
As ONGs na sua melhor expressão
mantêm a autonomia e a independência das instituições
hierárquicas, enquanto os movimentos sociais crescem na sinergia
com os sindicatos, os partidos e a universidade.
No cenário
cooperativo
abre-se espaço para a criação e crescimento das organizações
contemporâneas de massas – as ONGs . A sociedade civil
organizada surgira como uma categoria analítica devido ao
incremento extraordinário das organizações não governamentais
desde o bairro até às conferências mundiais, e pelo constante
exercício de sua ação fiscalizadora e informativa em todas as
partes. Tudo se passava como se as massas contemporâneas
tivessem , no desiderato de decidir sobre seus interesses
comuns, finalmente adotado o modelo participativo sugerido,
desde o Século XIX, pela ONU e deste modo, catapultado o efeito
de sua ação.
Numa enquete nacional sobre as
organizações não – lucrativas de governabilidade própria, nos
Estados Unidos em 1982 , encontrou-se que 65% (sessenta e cinco
por cento) destas haviam sido criadas depois de 1960. Na Itália
, o fenômeno das ONGs parece mais recente ainda, pois
proliferaram a partir de 1977. Na França , surgem onze mil
organizações voluntárias a cada ano, somando em 1987 o total de
54.000.
Mesmo as velhas 275 000 "charities"
inglesas tornaram-se mais efetivas, na medida que aumentavam o
seu peso relativo na produção da riqueza.
Na Alemanha, desde os anos 70, através do movimento de
"iniciativas da cidadania", mais de um milhão de pessoas foram
mobilizadas, especialmente pela ação do movimento feminista, dos
grupos ecológicos e pela militância em prol da paz. Esta
participação supera ao mesmo tempo o conjunto da militância de
todo o sistema partidário somado e o contingente atingido pelo
sistema oficial de Co-Gestão, o movimento operário em suma. Este
sistema oficial iniciando-se nos anos 50, vem englobando
centenas de milhares de funcionários e trabalhadores.
Cabe notar que enquanto o
crescimento voluntário das associações populares nos países
industrializados aconteceu crescentemente desde o final dos anos
sessenta até à manifestação de seu caráter internacional a
partir do final dos anos oitenta , no Brasil a "Rio-92"
constitui-se num marco de grande significado, pois subitamente
mais de mil ONGs foram criadas em todo o Brasil em defesa do
desenvolvimento sustentável. Porém, pode-se observar que a ação
das ONGs brasileiras decresceu significativamente desde então
até a preparatória para a Rio+5.
Enquanto na explosão de opinião
que caracterizou a Rio- 92, no Brasil apresentavam-se 1159
grupos associativos não corporativos e sem função de lucro, nas
ações preparatórias da Rio + 5 apenas 306 ONGs permaneciam
ativas, correspondendo a um decréscimo participativo de mais de
setenta por cento.
Se verificado o decréscimo por
região, vemos que apenas na Região Amazônica o ímpeto crítico da
sociedade civil fora mantido, com 85% de presença das
organizações durante a Rio+5, em comparação com a Rio-92.
Na Rio+10 a participação foi
ainda menor, consistindo numa ação política quase que exclusiva
do ator estatal.
É que o problema do Século XXI,
parece ser que mesmo o mais poderoso dos Estados não consegue
manter controle sobre todas as coisas, conduzindo a um
cenário de confronto, no qual, as massas parecem depender
mais das manifestações de opinião e protesto, mobilizadas num
tempo imediato.
Dos escombros das torres de Nova
York ressurgem os quadrantes de um sistema internacional
composto por soberanias isoladas e competitivas. A não ser
através de uma ação de uma soberania dominante sobre as outras
soberanias, os ecotemas e os outros temas globais passarão para
um segundo plano.
Os assuntos como clima,
biodiversidade, equilíbrio financeiro e fiscal, combate à
pobreza, dependência de fontes energéticas, qualidade de vida,
assimetria internacional ou a paz, todos requerem recursos
econômicos, políticos, sociais e culturais muito vultosos.
A governabilidade global destes
temas parece depender mais que nunca de uma complexa
articulação entre estados – nacionais, os agentes do mercado ,
as corporações transnacionais, e o Terceiro Setor. As ONGs, os
Movimentos Sociais, a Filantropia, todos estes , sujeitos
diversos e heterogêneos, ainda permanecem sem autoridade formal
significativa no corpo da ONU ou de qualquer outra organização
internacional.
Na contramão do cenário de
confronto , o Fórum Social Mundial reuniu em 2003 centenas de
grupos organizados com a aspiração de influir nas decisões que
afetariam a cidadania mundial.
Apesar de sua principais sessões
abordarem os temas próprios do cenário de confronto, como a
guerra , o terrorismo e a hegemonia, milhares de vozes agrupavam-se
nas oficinas , cuja preparação cobriu todo o ano anterior, sendo
portanto afetada pela aspiração participativa. No interesse de
observar qual o interesse genuíno das massas contemporâneas,
organizadas em associações civis, propus-me a classificar os
temas das oficinas de trabalho, conforme , se verifica a
seguir.
O Fórum Social Mundial
O Fórum Social Mundial parece ser
uma organização onde os movimentos sociais e as ONGs interagem,
como também as instituições representativas clássicas: os
partidos e os sindicatos. Os governos , ainda que
secundariamente, também se fazem presentes, mas, especialmente
nos fóruns locais.
Os três FMS aconteceram em Porto
Alegre, que passou a ser uma referência mundial, quando se trata
de democracia participativa.
O FSM parece exercer justamente a
função de uma ação comunicativa entre atores heterogêneos da
sociedade civil. Na suposição de que compartilham valores comuns
que os tenham conduzido àquele encontro, os delegados de
centenas de entidades , dispõem-se a decidir juntos , os
próximos passos dos seus movimentos e orientações. Esta tomada
de decisões acontece indiretamente, sem centralização ou
hierarquia estável, como um exercício comum de formulação de
linguagem, verbal , corporal e expressiva.
O FSM portanto constitui
uma fonte de intelecção sobre o que está se transformando no
campo da sociedade civil. Num esforço exploratório inicial
classificamos
pelo tema principal as oficinas e os seminários realizados no
III FSM, justamente aquele que se segue ao Onze de Setembro,
cujas mesas e debates principais tratavam da Guerra e da posição
do Governo Bush.
|
Assunto da Oficina |
N0 de
Oficinas |
Porcentagem |
|
Globalização
Solidária |
473 |
22,99% |
|
Sociedade Civil |
428 |
20,80% |
|
Reforma das
Instituições |
412 |
20,02% |
|
Paz |
379 |
18,42% |
|
Meio Ambiente |
208 |
10,11% |
|
Artes |
64 |
3,11% |
|
Outros |
52 |
2,53% |
|
Ética |
41 |
1,99% |
|
Total |
2057 |
100% |
A
hipótese assumida era de que apesar do cenário de confronto
suscitado pela Guerra contra Saddam haveria a oportunidade
de detectar-se os principais assuntos ou temas escolhidos pela
sociedade civil. Isto era devido ao tempo de preparação do
evento do Fórum que se estendeu por todo o ano de 2002,
coincidindo com o cenário de cooperação.
Na classificação de Globalização
Solidária incluíram-se : a) tanto os movimentos
anti-americanistas quanto os contrários à globalização
neoliberal e ao próprio neoliberalismo; b) as questões
relativas à integração de organizações e à cooperação
internacional e à identidade regional na Europa e na América
Latina, levando-se em conta o papel e a importância da
compleição política do novo Governo do Brasil; c) as
discussões sobre a atuação de organizações multilaterais e
blocos econômicos tais como o NAFTA, a OMC, a UE e sobre a
confrontação à ALCA, ao G-8 e ao padrão econômico -
comercial antidemocrático da atualidade;
Na classificação Sociedade Civil
abordaram-se assuntos como:) a iniciativa das mulheres
(3,74%) em influenciar políticas públicas, em propor novos
padrões de economia em âmbito regional, internacional e
multilateral, em discutir a vulnerabilidade ao HIV, em
reivindicar melhores condições de trabalho, em discutir a
problemática da violência e da intolerância contra a mulher;
b) a democratização dos meios de comunicação e da mídia
(4,36%), o controle social da televisão, o compromisso de se
utilizar a comunicação não violenta e a manipulação dos
meios de comunicação, vendo o pluralismo como alternativa;
c) as reivindicações do movimento sindical (3,06%) quanto a
direitos trabalhistas nas áreas públicas e privadas; d) a
ações e propostas dos jovens (3,26%) em relação à cidadania,
a programas para menores infratores, à sugestão de políticas
públicas, a programas de capacitação na área da infância e
da adolescência e à busca de um mundo melhor; e) as
reivindicações dos movimentos afros (2,82%), GLBTT (0,44%),
indígena (0,44%), campesino (0,09%) e migratório (0,63%); e
f) as ações necessárias para a construção e manutenção de
uma sociedade civil (1,94%) politicamente mais atuante e
consciente.
Classificaram-se na categoria Reforma
das Instituições o grupo de oficinas que tratou de temas
como: a) a reforma de serviços públicos nacionais;
b) a reforma de organismos
internacionais, como a ONU; c) a redefinição de padrões
educacionais públicos e privados e sua democratização como
um todo; d) a questão da autonomia universitária; e) os
mecanismos públicos de promoção de saúde coletiva e controle
da sociedade; f) as propostas para reforma agrária e
assentamento; g) a regulamentação, certificação e atividade
do terceiro setor; h) a discussão da identidade e imagem de
organizações sociais; i) os mecanismos diversos para
influenciar políticas públicas.
Como Paz englobaram-se: a)
diálogos pela paz e justiça social; b) desmilitarização,
desarmamento e erradicação de armas nucleares; c) religião e
espiritualidade; d) campanhas contra guerras em geral; e)
direitos humanos; f) conflitos na Palestina e no Oriente
Médio; g) entendimento dos povos; h) mediação de conflitos e
assistência; i) minas de Angola; j) hegemonia e oficio da
força; l) contenção da AIDS e qualidade de vida; m) questões
sobre violência; n) harmonia familiar; o) apoio a crianças
pobres, desnutrição na infância e segurança alimentar; p)
filosofia tradicional e da libertação; q) refugiados,
prisioneiros políticos, trabalho escravo e tortura; r)
combate à fome; s) manicomialismo, saúde mental,
interpretação de sonhos, diálogos do inconsciente,
psicanálise, auto-conhecimento e descriminalização do uso de
drogas.
Em Ética se trataram questões
como o combate à corrupção e aos mecanismos de fraude do
sistema eleitoral informatizado; a manipulação genética, os
mecanismos de reprodução humana no Brasil; a ética no
processo comercial de comunicação; e a responsabilidade das
grandes corporações quanto a modelos econômicos solidários.
As sessões de Meio Ambiente
versaram sobre: a) a proteção dos recursos naturais, os
impactos ambientais e o desenvolvimento sustentável; b)
questões relativas à biodiversidade e à ecologia; c) a
produção e o gerenciamento de transgênicos no mundo; d)
questões a respeito da gestão e da comercialização de
recursos hídricos; e) educação ambiental; f) urbanização em
áreas de risco natural; g) turismo ecológico sustentável; h)
a ação de ONGs, de militantes de entidades ambientalistas;
i) agrobiodiversidade e segurança alimentar; j) o
desenvolvimento da floresta amazônica e da mata atlântica;
l) produção de alimentos, gestão ambiental e agroecologia;
m) biopoder e biopirataria; n) oficinas de reciclagem e o)
saneamento ambiental.
Conclusão
Em 1976, quando num estudo clássico
, as atividades das ONGs internacionais foram classificadas
não havia menção à organização em prol do meio – ambiente. A
partir da Rio – 92 o próprio universo da ação não
governamental se modificara tanto que tudo parecia
concentrar-se na defesa do meio ambiente e do capital
social. Durante a década de 90, na equação da
sustentabilidade, a ecologia começa a dar lugar ao combate à
injustiça social, à pobreza , em favor do direitos humano da
inclusão.
Neste momento parece que os movimentos
sociais e as ONGs orientam-se em favor de um melhor
nivelamento dos setores desenvolvidos e menos desenvolvidos
do mundo.
Esta nova direção da ação popular inclui
a formulação de uma crítica positiva à noção de
desenvolvimento unicentrado no mercado globalizado, de modo
a que : 1. O desenvolvimento passe a ser simbolizado como
um resultado de um conjunto integrado de medidas e valores
econômicos, sociais e políticos, a serem regulados pela
cidadania. 2. As ONGs passem a estreitar os laços de
solidariedade no sentido norte - sul planetário, redefinindo
o compromisso com a distribuição da riqueza entre os países
mais ricos e mais pobres, ao ampliar para o espaço
internacional, o escopo de sua ação.
A noção de sustentabilidade que surgiu da
atividade participativa da sociedade global primeiramente
clamou pela defesa das condições planetárias, estendeu-se
para incorporar o desenvolvimento social e o desenvolvimento
humano.
Finalmente , pelo que se indica na
participação da sociedade civil organizada no terceiro FSM,
o desenvolvimento que se quer coincide com o desejo de uma
única humanidade regida por instituições globais, que
abriguem os meios para decisões comuns.
LA
ONDA®
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