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Quanto mais as
coisas mudam...
Eva P. Bueno
Brasil |
Quanto mais as coisas mudam...
por Eva P. Bueno
O
amigo Raymundo me perguntou o que eu achei do Brasil de Lula. Depois de
minha última visita à pátria amada que coincidiu com a tomada da posse
de Lula, a pergunta do companheiro faz sentido, já que por estas alturas
é bem possível que as mudanças lulais devam ser visíveis. Sim ou não?
Difícil dizer. Primeiro, porque é quase impossível voltar ao Brasil e
tentar recuperar o que já estava em andamento da última vez que estive
aí. Isto é, as mudanças que observei podem ser resultado da política
governamental, ou simplesmente o que acontece naturalmente com as coisas.
Segundo, porque é totalmente impossível “fazer de conta” que o Brasil é
somente mais um país que visitei. Esta coisa da pátria, do país da
gente, é muito forte, muito visceral, mesmo quando a gente mora fora há
muitos anos. Tomando como exemplo Curitiba, onde morei por algum tempo
nos inícios dos anos oitenta: a cada esquina que passo, mesmo quando ela
tenha mudado superficialmente, vejo não só a esquina que está ali no
momento, mas todas as outras vezes que passei por aquela esquina, as
pessoas com quem passei aquela esquina, as mudanças, perdas, danos e
ganhos que ocorreram nas muitas passagens por aquela esquina. O quiosque
que vende cafezinho e pão de queijo, perto da praça Ozório na Rua Quinze
de Novembro é ele mesmo, e também os papos com colegas do mestrado na
Federal, e encontros com amigos, e passeios com os filhos no fim de
semana. O tempo se comprime às vezes, especialmente quando a gente viaja
de volta a lugares importantes da nossa vida.
Isto não significa que não pude observar algumas coisas que ocorrem “do
lado de fora”.
Aqui vão algumas observações que fiz ao decorrer das últimas cinco
semanas. Talvez não sejam mais agudas que as que faria qualquer cidadão
ou cidadã que continuou no Brasil desde o começo do governo Lula. Mas
talvez tenham um pouco daquela claridade que a gente obtém quando vai a
um lugar pela primeira vez.
Em Ouro Preto
Primeira parada no Brasil: São Paulo. Mas somente para tomar um ônibus
para Ouro Preto, Minas Gerais, com familiares. Novidade: minha sobrinha
pôde comprar as passagens de ônibus pela internet, e uma pessoa as levou
ao escritório dela. Isto tudo, de acordo com a informação sobre este
serviço, pra evitar que o passageiro tenha que ir à rodoviária e
enfrentar os trombadinhas para poder comprar a passagem. Isto certamente
ajuda a quem tem computador e conexão com a internet. Pra quem não tem
nada destas coisas, o jeito é ir mesmo à rodoviária, e salve-se quem
puder. Eu não estou exatamente reclamando, somente comentando, já que
fui a beneficiária do serviço, e achei-o estupendo.
Em Ouro Preto, meus familiares e eu tivemos o prazer de contar com o
profissionalismo dos agentes de turismo da cidade, gente boa, mineira,
hospitaleira. Fomos rever todos os lugares de praxe nas cidades
históricas, comer os quitutes, bater papo com gente nas praças, tirar
fotos. Entre as surpresas nesta viagem esteve a presença negra. Não que
em Minas haja mais negros que antes. O que houve desta vez foi a
presença do discurso negro. O nosso excelente guia, enquanto se
deleitava em explicar ao nosso grupo sobre os monumentos, igrejas,
estátuas, usava toda a oportunidade que podia para frisar a presença
negra na história, o trabalho dos negros, a contribuição negra em todos
os aspectos da sociedade.
Não sei se esta característica é um efeito do governo Lula. Mas me
lembro que, da última vez que estive em Minas com um grupo (em 1994), o
nosso guia ( também mulato), se concentrou mais nos aspectos técnicos
dos monumentos. De todas formas, quando todos nós discutimos os passeios
do dia, todos meus familiares concordaram que nosso guia não tinha
exatamente dado informaçes novas sobre a colonização de Minas, ou a
exploração das minas de ouro, mas que ele tinha enfatizado uma parte da
história que até recentemente era passada por cima como subentendida, ou
mesmo não merecedora de menção.
Em Londrina
Quando a Sanbra construiu o seu primeiro silo em Maringá, até no jornal
da cidade (a Folha do Norte do Paraná) houve um comentário que a cúpula
do silo parecia um disco voador. Isso faz muito tempo mesmo. Mas não faz
tanto tempo que uma pessoa como eu não se lembre que então a companhia
era sinônimo de produtos feitos de soja, ou seja, exclusivamente o óleo
e uma outra coisa que só sabíamos que era exportada para servir de ração
para animais. Ninguém que eu conhecia sequer pensava em consumir algo
feito de soja que não fosse o óleo.
Agora, ao que tudo indica, tudo que é bom é feito de soja. É quase como
uma nova versão do ipê roxo, que se dizia que curava câncer e outras
doenças. Desde os efeitos beneficiais para as pessoas que precisam repor
hormônios, até aqueles que têm doenças intestinais, tudo de soja parece
ser a solução. Através de uma das minhas irmãs eu tinha experimentado
uma deliciosa versão com sabor de picanha, aliás muito melhor que outros
produtos tais como o conhecido tofu, e o menos conhecido “natto” (os
grãozinhos de soja fermentados). Não é de se admirar, portanto, que
quando estive em Londrina por uns dias, ao achar uma lojinha que vende
os tais produtos, resolvi comprar vários pacotinhos. A vendedora era uma
convicta consumidora dos produtos. Conversamos animadamente, e ela me
explicou ainda mais os benefícios da soja. Então um senhor que estava na
loja nos interrompeu, sem a menor cerimônia.
– “Não é a soja. Está errado dizer a soja. Tem que ser o soja.”
(Lógicamente a fala do homem não tinha sublinhado, mas ele bem que
frisou o ponto.)
A moça e eu respondemos:
– “Quê??”
E o distinto senhor:
– “Tem que ser o soja porque é o feijão soja. Detesto escutar gente
apunhalando a língua portuguesa! Sou professor de português, e tenho que
defender a nossa língua.”
Ai ai ai. Que responder? Que objetar? Logicamente, logo de cara, poderia
dizer que ele não estava na nossa conversa, e não tinha nada que se
meter. Por outro lado, a língua não é só dele, mesmo que ele tenha
ensinado a conjugar verbos e a colocar acentos durante uma carreira
inteira de magistério. A língua portuguesa, assim como todas as línguas,
é uma entidade viva, que respira, cresce, muda. Ele deveria saber disto,
mas o caro professor da língua portuguesa se sentiu tão injuriado pela
“indiscrição lingüística” cometida por mim e pela balconista, que ele se
viu na obrigação de sair em defesa da última flor do Lácio, inculta e
bela, que está sendo atacada por todos os lados por gente que nem sequer
presta atenção ao gênero desta palavra, SOJA.
Eu objetei ao senhor, de todas formas, que a maioria das palavras
portuguesas terminadas em “a” são femininas, e portanto esta palavra
relativamente nova dentro da língua tenderá a seguir o padrão normal. E
também acrescentei que “o feijão soja” não é a mesma coisa que “a soja,”
porque no primeiro caso a palavra “feijão”, por ser mais antiga, e estar
mais próxima do artigo, vai dominar o gênero.
Mas, ao fim de contas, fiquei eu mesma na dúvida, e comecei a fazer uma
pesquisa informal entre amigos e parentes, pra saber se eles usam “a
soja” ou “o soja.” Todos com quem falei concordaram comigo: é “a soja.”
Todos concordaram, menos, lógico, uma irmã que foi professora de
português por uns 30 anos. Então, temos o grupo de falantes, e outro de
mandantes da língua portuguesa.
Moral da história: masculina ou feminina, a soja ou o soja é um produto
agrícola maravilhoso mesmo. Recomendo a de sabor picanha. Os pacotinhos
são bastante portáteis, e o produto é barato, nutritivo, gostoso.
Na capital
Passeando por Curitiba, notei a presença constante de uma placa que diz
que esmola não dá futuro, e pede às pessoas que contribuam diretamente a
assistências à criança e adolescentes.
Certo. Melhor dar apoio a estas instituições que vão providenciar
comida, calçado, escola, para os jovens carentes. Não tem nada que faça
com que a gente se sinta em um país desmoralizado como ver gente
mendigando, especialmente crianças e jovens que deveriam estar na escola,
brincando, se educando e aprendendo uma profissão.
Durante minha passagem por Minas, São Paulo e Maringá, não vi realmente
ninguém pedindo esmola. Este fato me chamou muito a atenção, porque o
contrário era a norma anterior. Entretanto, no meu terceiro dia em
Curitiba, caminhando pela Carlos de Carvalho, me deparei com uma cena
chocante: um homem de uns 30 anos, abrindo sacos de lixo na calçada e
comendo o que encontrava neles.
Que fazer numa situação destas? As pessoas passando pela mesma calçada
ignoravam o homem. Ele, por sua vez, ignorava todos e seguia sua tarefa.
A sua aparência mostrava que, provavelmente, ele também sofria de algum
problema mental. Ou seria simplesmente a fome que o colocava nesse
desvario?
Me lembrei, naquele momento, de algo que Carolina Maria de Jesus escreve
no seu Quarto de despejo (escrito de 1955 a 1960). A cena era exatamente
a mesma: uma pessoa cavando no lixo e comendo o que encontrava. Mas esta
lembrança não durou mais que um segundo. Ali, na minha frente, estava um
ser humano reduzido a uma condição que outro ser humano não deveria
jamais deixar acontecer. Que fazer? Que fazer?
Ali perto estava a placa dizendo que esmola não dá futuro. Na minha
frente, uma pessoa que desesperadamente necessitava uma ajuda naquele
momento. No país, uma campanha diz que todos os brasileiros têm o
direito de comer. Na minha cabeça, tudo ao mesmo tempo, a certeza de que
ao dar um pouco de dinheiro àquele homem, eu estaria somente aliviando
minha consciência, mas não resolvendo o problema, realmente. Além do
mais, havia a possibilidade de que o homem era doente mental, e que não
receberia bem qualquer tentativa de ajuda da minha parte, e talvez até
me atacasse.
¿Que fazer, Que fazer?
Antes de ficar completamente paralisada por minhas vacilações, tirei uma
nota da bolsa, caminhei até o homem, e lhe disse que parasse de comer
porcarias e fosse almoçar com o dinheiro que eu estava lhe dando. Eu
tinha o direito de dizer isto a ele? Não sei. Eu resolvi o problema da
fome? Claro que não. Eu ajudei na campanha de conscientização que esmola
não dá futuro? Também não. Mas pelo menos sei com certeza é que talvez
aquele pobre homem tenha podido comer uma refeição decente naquele dia.
Às vezes os grandes discursos não ajudam a pessoa real, que está bem na
nossa frente. Acho que, por mais que digam que esmola não dá futuro, a
intervenção no momento é a única coisa que resolve um problema tão
básico como chegar às 3 da tarde sem ter nada que comer. Mas não me
sinto nem moralmente superior a ninguém por ter dado àquele pobre homem
um pouco de dinheiro, nem como alguém que já fez o que pôde. Falta muito
a fazer pra resolver o problema da fome, e dos desesperados pelas ruas
do Brasil. Precisamos que estes programas governamentais continuem, e
que as estruturas de apoio e de recuperação dos que caíram pelas
beiradas da sociedade sejam formadas para que cidadãos como eu possam
confiar que a nossa contribuição vai realmente beneficiar aos
necessitados, e não somente criar condições de continuação da mesma
situação de miséria e fome.
Mais questões lingüísticas
Quem é que não se lembra como, em Maringá dos idos 60 e 70, fazíamos
piada com os curitibanos, imitando aquele sotaque cantado, dizendo com
todas as vogais pronunciadas como na escrita, e o “te” sem o nosso “tchi”,
e do “de” sem o “dij”: “leite quente dá dor de dente”? Aliás, outra
piada comum era ver os colegas que tinham ido fazer uma visitinha de fim
de semana a Curitiba voltarem imitando o sotaque afetado, porque isto
dava status. Curitiba era, para todos nós, a terra do “leite quente dá
dor de dente.” E até minha última visita, continuava sendo.
Tenho a reportar que isto mudou, caso alguém não tenha notado. Nas ruas
da capital paranaense, nas lojas, nos restaurantes, o sotaque
característico está em extinção. Provavelmente, com o influxo de gente
de outras partes do país em busca de trabalho, as resistências do
sotaque foram sendo minadas, as muralhas entraram em erosão, e
finalmente o arcabouço do “leite quente” está caindo por terra.
Mas não completamente. Parada num ponto de ônibus em um bairro da
periferia da capital, notei que o sotaque continua vibrante, com todas
as notas musicais a que tem direito, todos os “de” e “te” e as vogais
pronunciadas. A não ser, obviamente, que aquelas pessoas que escutei
eram realmente do interior do estado e estavam tentando imitar o sotaque
curitibano.
Maracatu
Outra coisa que se escutava muito de Curitiba no passado era como esta
cidade era “européia.” Sabe-se lá o que isto queria dizer na verdade,
mas provavelmente o que isto significava era que a maioria da população
de Curitiba era branca. Ainda continua sendo uma verdade, pelo menos nas
partes centrais. Outra coisa que este “européia” queria dizer era que as
manifestações culturais eram européias, afinal, Curitiba tem balé e
ópera, entre outras coisas.
Então, a apresentação de um grupo de maracatu na Rua XV de Novembro foi
não só uma surpresa agradável, mas, eu espero, um sinal dos tempos.
Embora a maioria dos membros do grupo era branca, a apresentação foi
excelente. Conversando mais tarde com alguns dos participantes, eles
disseram que são um grupo de uns 30 jovens que se reúnem semanalmente
para praticar o maracatu e estudar a história do maracatu. Para eles, a
recuperação da herança negra é um ponto importante da sua compreensão do
que significa ser brasileiros. Neste tempo em que um guia turístico em
Ouro Preto pode falar abertamente da presença negra na história do
Brasil, e um grupo de jovens no sul do país se dispõe a estudar a
praticar um evento cultural negro podemos dizer que as coisas estão
melhorando. Quem sabe o grupo continue praticando, fazendo apresentações
nas ruas da cidade, explicando o que o maracatu significa. Tomara que
sim.
* * *
Mas ainda falta resolver o problema da fome. Ainda tem muita gente
desempregada. Os professores e outros profissionais ainda ganham muito
mal. O problema (ou o discurso) da violência continua como antes. Tem
mais, mas vamos ficando por aqui mesmo por hora. Talvez o governo Lula
não consiga resolver estes problemas, mas está tentando. E, quando eles
forem solucionados, ainda vai faltar decidir o gênero da soja.
[1]
Publicado en Revista Espaço Académico
www.espacoacademico.com.br , julio
2004 y reproducido por especial acuerdo con dicha Revista bien
como con su autora, lo que mucho agradecemos a ambos.
[2]
Eva P. Bueno es brasileña, nacida en el estado de
Paraná. Tiene el Master’s en lengua inglesa y literaturas por la
Universidad Federal de Rio de Janeiro, y el doctorado en
lenguas e literaturas hispánicas por la Universidad de
Pittsburgh. Ha vivido en Brasil, Japón, Estados Unidos, y
Alemania. Actualmente es profesora de espańol y portugués en la
St. Mary’s University en San Antonio, Tejas. Ha publicado libros
y ensayos sobre el cinema brasileńo, la cultura popular
latinoamericana, la literatura brasileńa, la literatura
comparada, y la enseńanza del inglés.
LA
ONDA®
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