Além da crise Talvez nunca a história do Brasil tenha reunido pessoas com biografias tão respeitáveis em um só partido: Lula, Dirceu, Genoino são nomes que fazem parte da história do País. Juntos, construíram um partido que ocupa um lugar especial na história do Brasil. A crise atual ameaça tanto as biografias quanto o partido. Ameaça, portanto, patrimônios nacionais. Há crises administradas pelos governos e crises que dominam os governos, administrando-os. Essas últimas não são resolvidas dentro da própria lógica que as criou, exigem uma ruptura com suas causas e um olhar adiante delas: além da própria crise. Além do mandato. No caso do governo e do Presidente Lula, a saída da crise não está em administrar a crise. É preciso vê-la na sua perspectiva histórica, rompendo com suas causas centrais: a promiscuidade entre política e dinheiro, tanto nos processos eleitorais quanto no exercício do poder; e o instituto da reeleição. Lula pode manter sua biografia se enviar ao Congresso um projeto de reforma da Constituição abolindo a reeleição e, ao mesmo tempo, informar que dará o exemplo abrindo mão do direito de se candidatar em 2006. Além disso, o presidente deve usar os meses que lhe faltam para fazer aprovar uma Reforma Política que impeça e puna atos de corrupção. Além da economia. O governo do PT amadureceu no tratamento da economia. Entendeu, que não há economia de direita ou de esquerda, e sim economia responsável ou irresponsável, competente ou incompetente. Mas não entendeu que o governo tem de ir além da economia, que os problemas da pobreza não se resolvem pelo crescimento econômico, e sim através de políticas públicas que mudem a realidade social: abolir a pobreza, distribuir a renda, educar toda a população. Além de São Paulo. Para ir além da economia, o PT precisa ir além de São Paulo. Não pode continuar olhando o Brasil de cima dos prédios da Avenida Paulista, ou do chão das fábricas do ABC. A realidade brasileira e as necessidades do povo brasileiro são muito mais do que repetitivas bandeiras de ordem internas do setor moderno da economia. Além dos trabalhadores. O PT surgiu vinculado ao movimento sindical e ficou prisioneiro das categorias profissionais do setor moderno da economia, corporativizou-se. Essa visão fez o governo agir como se, no lugar de mudar o Brasil para todos, seu papel fosse atender a cada grupo da sociedade. Perdeu-se o compromisso com mudanças e trabalhou-se com o objetivo de atender demandas. O PT não sairá da crise se não for além dos trabalhadores e se transformar em um partido de todo o povo. Além das tendências. Não é possível construir um Partido que se nega a ser Partido, prefere ficar dividido em tendências, como subpartidos, sem uma idéia central aglutinadora. A atual crise moral vem principalmente da falta de ideologia que transforma o militante comprometido com mudar o Brasil em um militante comprometido apenas com o presente, com seu grupo. Além da ética. Mais do que a definição rígida de regras para a ética do comportamento de seus dirigentes, o PT precisa definir com igual rigidez o marco da ética nas prioridades sociais que seus governos realizarão. Só olhando além da crise, fazendo uma autocrítica, buscando as causas da crise antes e pensando o futuro além dela, será possível superá-la, recuperar as biografias e reconstruir o Partido. O País precisa de seus símbolos e dos instrumentos políticos para sua transformação social, para completar sua República e sua Abolição, socializar seu desenvolvimento. Esse é o desafio que vive hoje, entre frustrada e angustiada, a militância de esquerda no Brasil. *Professor da Universidade de Brasília, Senador pelo PT / DF. cristovam@senador.gov.br LA ONDA® DIGITAL |
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