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A ética e a mudança
Cristovam Buarque |
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Breve manual
para ser un
escritor del régimen
Jorge Gómez Jiménez |
A ética e a mudança
por Cristovam Buarque
Durante os primeiros 30
meses do governo do PT, poucas vozes criticaram o afastamento do partido
das suas propostas sociais. A imprensa e a militância conviveram sem
inquietações com o desvio político para posições mais conservadoras na
área social. No entanto, bastaram denúncias de desvios éticos para que
todos despertassem.
O PT é um partido formado com base na ética política e na mudança
social. Os desvios éticos aflorados recentemente são no mínimo tão
graves quanto os desvios políticos realizados ao longo do governo Lula.
Com o agravante de que a honra pode ser recuperada, mas a causa talvez
jamais o seja. Porque a primeira foi agredida por poucos dirigentes,
imprevidentes ou desonestos; já a segunda foi perdida por toda a
militância, por omissão ou cooptação.
O PT perdeu a honra agora, mas a causa foi perdida desde o começo do
atual governo. Sob a liderança do chamado “bloco majoritário”, o partido
abandonou a causa que o inspirou desde a sua fundação. A militância no
geral assistiu passivamente ao abandono das causas históricas. As
exceções foram alguns grupos internos e militantes independentes, que
não transigiram e continuaram criticando, coerentes com suas bandeiras.
O PT chegou ao governo sem fidelidade às suas causas, e sem reorientá-las.
Muitos partidos mudam suas causas, sobrevivem e crescem, mas nenhum
cresce se as abandona. Se o PT abandonou causas porque dificilmente
teria condições de executá-las, então deveria tê-las modificado antes
das eleições de 2002. O mundo mudou muito entre a fundação do partido e
o começo do século XXI, teria sido natural ajustar seu programa à nova
realidade. Mas isso não aconteceu. Os dirigentes do PT e do governo
simplesmente abandonaram suas bandeiras históricas, sem dar explicações,
sem convencer nem empolgar a militância sobre as novas visões.
Foram também abandonadas causas substanciais, sem as quais o PT não se
justifica, porque sempre existiu para mudar os rumos do Brasil. Nesses
dois anos, mesmo quando a honra do PT ainda estava intacta, o governo
perdeu todo o compromisso com a mudança da sociedade brasileira. Em 30
meses, não executou nenhuma medida claramente transformadora. Ao
contrário, preferiu a continuidade da política econômica e assistencial
do governo anterior, com pequenos ajustes administrativos, e mesmo
alguns retrocessos nos impactos sociais, como na migração da Bolsa-Escola
para a Bolsa Família.
Não realizou nenhuma ação concreta contra a pobreza, concentração da
renda, a desigualdade regional, a violência urbana e rural, a crise
habitacional, pela proteção da infância ou do meio ambiente. As poucas
mudanças realizadas na educação, como a erradicação do analfabetismo, a
Certificação Federal do Magistério, a implantação da Escola Ideal, foram
abandonados depois de um ano.
O governo Lula tem se caracterizado pela falta de causas desde antes da
falta de honra atingir o PT nas últimas semanas. A última será superada
em breve, porque os militantes não têm responsabilidade nem participação
nos fatos desabonadores. Mas a primeira dificilmente o será, porque a
militância do PT, liderada pelo “bloco majoritário”, foi omissa nesses
30 meses. E para construir uma nova causa, ela vai precisar de um longo
processo de reflexão, talvez de décadas, até conseguir fazer o que
deveria ter feito antes da chegada ao poder. Mas agora com o alto custo
de já ter sido governo, e sofrido a perda interna e externa do
encantamento.
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